Por dentro das panelas

09.01.13 :: 11:40. Arquivado em: Leitura.

Por dentro das panelas é um livro da Késia Quintaes onde ela pegou as informações obtidas do seu doutorado e transformou em livro. Késia é uma das poucas pessoas que estudam materiais em utensílios culinários no Brasil e neste livro ela aborda de forma bastante acessível e com um apanhado histórico sobre como aquele material começou a ser utilizado em nossas práticas culinárias desde os tempos mais remotos.

A cada capítulo ela descreve um material, apresentando, no final de cada, uma tabela com as vantagens e desvantagens, cuidados que devem ser tomados ao utilizar aquele utensílio e outras informações adicionais. São vários e creio que nem todos conhecem a variedade de materiais que são usados para fazer panelas. Tem as mais conhecidas como as de alumínio, inox, ferro, barro, antiaderente, mas também de pedra sabão, cobre, vidro, cerâmica e esmaltadas. No final do livro ela também fez um resumão com diversas preparações (por exemplo: arroz, feijão, molho de tomate, frituras, etc) e apresenta quais os materiais que são indicados para fazer determinada preparação. Outra tabela apresentada no final é sobre o público alvo para cada tipo de material (panela de ferro para pessoas com anemia, por exemplo).

Descobri muitas coisas bacanas com a leitura desse livro, e uma das que mais me assustou foi o fato de que utensílios de cristal (não vidro) podem conter chumbo, um metal extremamente tóxico, e que se utilizarmos alimentos ou líquidos ácidos nesses utensílios ele passa para o conteúdo. Já outras, mesmo o livro sendo relativamente novo, acredito que já teriam bastante atualizações ou no mínimo controvérsias (será que o ferro da panela ajuda mesmo a curar a anemia ainda que boa parte dele já esteja oxidado?). Novos materiais também precisam ser melhor estudados. Por exemplo, há alguns meses publiquei uma foto mostrando uma aquisição de tábua de bambu. Surgiu a dúvida: mas madeira não é um material pouco higiênico? Ainda não encontrei estudos avaliando utensílios culinários de bambu (que já invadiram o ocidente graças a influência dos orientais em nosso país), mas existem sugestões de que ele é mais higiênico que a madeira e que possui propriedades antimicrobianas. Sabemos também que os costumes dos nossos amigos da terra do sol nascente são muito mais saudáveis que os adeptos da vida fast, então creio que pode existir sim uma vantagem em utilizar utensílios deste material. Mas a ciência é assim mesmo: a cada dia surgem novas descobertas, novas perguntas, mais rápido do que podemos imaginar.

Outra questão que eu trago é para nos preocuparmos não apenas com as panelas, mas com todo o resto dos utensílios que utilizamos para comer. Comentei do cristal, que geralmente é utilizado em taças, mas existem também as vasilhas de plástico, abastadas de estudos indicando que possui materiais com propriedades obesogênicas, ou seja, promovem a obesidade [1, 2, 3]. E as latinhas de conservas, que podem liberar alumínio e outros metais para o alimento que está ali dentro, comprovadamente associado com Alzheimer e outras desordens neurológicas [1, 2, 3]?

Se você gosta de passar umas horinhas preparando sua refeição ou no mínimo se preocupa com sua saúde, essa leitura também é pra você.





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Para ler: Em defesa da comida

22.10.12 :: 08:19. Arquivado em: Leitura.

Em defesa da comida – Um manifesto é um livro de Michael Pollan, um jornalista americano que já publicou vários textos sobre alimentação e que levantam pontos polêmicos sobre esse ato que é de interesse de 100% dos humanos.

Neste livro, Pollan faz críticas à indústria de alimentos, percorrendo a história da industrialização da alimentação e o avanço da medicina e, contraditoriamente, das doenças. Pode parecer um livro um pouco técnico para algumas pessoas, mas a linguagem é acessível a qualquer pessoa, mesmo que você não seja da área da saúde. No começo achei o livro meio pretencioso, pois Pollan começa criticando duramente a profissão de nutricionista e a ciência, levantando questões acerca do “nutricionismo” e sua visão reducionista da alimentação, sem saber (creio eu) que o que ele reivindica dos profissionais é o mesmo (pelo menos para mim) que acreditamos.

É bom ver que mais alguém que não é da área da saúde consegue enxergar que pílulas de nutrientes não são a mesma coisa que consumir o alimento in natura, e não é apenas pela questão do processamento, da industrialização. Neste caso, tenho que dar o braço a torcer para Pollan, pois estudos avaliando a ingestão de alimentos ou substâncias é complicadíssimo de se realizar, e é um dos aspectos abordados por ele em seu livro, o que nos faz questionar até que ponto se pode confiar na veracidade dos dados de estudos realizados pelo mundo a fora.

Lidar com a alimentação das pessoas é delicado, pois envolve uma gama de interferentes. Lembro-me de uma aula, quando uma colega descendente de japoneses comentou que adorava quando a avó dela fazia arroz e ela ia, toda feliz, comê-lo quentinho com um ovo cru quebrado por cima. Aquilo, para mim, era completamente nojento, mas pra ela tinha significados que eu, enquanto uma pessoa de fora da sua realidade, jamais conseguiria mensurar. O momento da alimentação e seus interferentes também é trazido à tona no livro, com exemplos da alimentação tipicamente americana – fast food – e da alimentação francesa, onde a comida é apreciada, bem como o momento em que ela é realizada, constituindo não apenas um momento para abastecer o corpo de substâncias nutritivas, mas também um momento de integração com outras pessoas.

Além deste livro, Pollan já publicou O dilema do Onívoro, que também trás como tema as implicações éticas e ecológicas, econômicas e políticas relacionadas ao ato de se produzir e consumir um alimento, e Regras da Comida. Este último ainda não tenho, mas o primeiro já está na lista de próximos livros a serem lidos.





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